“O Senhor dos Anéis e Harry Potter”

Um adolescente de 16 anos, decapitou com um golpe de facão a avó materna Teresa Lucas da Silva, 59, ontem de madrugada (Jornal O Povo, Fortaleza, 31 de Janeiro de 2003). Foi com esta notícia que me deparei no dia em que me preparava para escrever este artigo. Além de acrescentar que o adolescente, depois de um bom banho, saíra com a cabeça da avó na mão, o jornal informava, na mesma página, que havia falecido no dia anterior um homem envenenado pela filha.

Impressionada com estas notícias, fui reler o que consegui sobre o Senhor dos Anéis. Tolkien, o autor da trilogia na qual se baseiam os filmes, nasceu na África do Sul, em 1892 e, tendo sua mãe se convertido ao catolicismo, também ele foi batizado. Após a morte dos pais, foi criado por um padre e fundou, em 1930, o Inklings, um grupo de cristãos que se dedicavam à literatura. Diz Jaques Delatouche, em artigo na revista católica Feu et Lumiere: A inspiração cristã da obra é, à primeira vista, indecifrável (...) E, no entanto, Tolkien confessa a um amigo: “O Senhor dos Anéis é uma obra fundamentalmente religiosa e católica” (...) Isso não significa que os livros se prestem a uma interpretação simplista, que a todo instante encontra paralelos entre as escrituras e seu enredo. O próprio Tolkien, recusa estas interpretações desproporcionadas dizendo: ‘A encarnação é uma realidade infinitamente superior a tudo o que eu jamais ousaria abordar’.”

Procurei reler, igualmente, o artigo sobre Harry Potter publicado na revista Il Est Vivant, da Comunidade Emmanuel de Paris.
O mais importante, porém, era assistir aos filmes. Para minha surpresa, não encontrei neles receitas de poções, aulas de magia negra ou ódio nos protagonistas.
Em Harry Potter, as crianças voam em vassouras e fazem levitar uma pena, além de, para defender o amigo contra o ataque de um bruxo, colocar fogo na ponta da capa do próprio. Em Senhor dos Anéis, encontrei cenas fantásticas de árvores que andam, de seres da mitologia céltica com pés grandes e peludos, orelhas pontudas e estatura de um pigmeu. Vi cenas mirabolantes de guerras travadas com seres inexistentes na vida real. Com toda a sinceridade, nada que se possa comparar às cenas de pessoas que saem, aos gritos, com as roupas em chamas devido a explosões ou ataques incendiários dos filmes enlatados da indústria cinematográfica americana. Nada semelhante às cenas de filmes violentos onde se vê, com crueza impecável, partes do corpo decepadas, cabeças vazadas por balaços ou sangue jorrando aos borbotões enquanto a vítima se debate diante do indiferente e frio mocinho que, por vezes, ainda diz uma piadinha diante do agonizante.

A pior violência que vi em Harry Potter e a Pedra Filosofal foi a morte de um ser esverdeado de uns três metros de altura, que feriu-se com seu próprio tacape e a petrificação de um bruxo mau que não suportou o amor presente nas mãos de Harry, ao segurar os dedos do feiticeiro que apertavam sua garganta.

Em O Senhor dos Anéis I e II, a violência dá-se em meio a uma guerra entre miríades de seres míticos ou nos empurrões a que os Cavaleiros do Mal submetem os aldeões cujas casas incendeiam, ou em lutas fantásticas entre o “mago do bem” e o “mago do mal”, na qual ambos voam da base ao alto de uma torre, a atirarem-se mutuamente contra as paredes por força de seus cajados.
O que encontrei em ambos foi fantasia, mitologia e – mesmo que me tenha sido duro admitir – protagonistas que vivem valores como o perdão insistente (Frodo, no Senhor dos Anéis, perdoa inúmeras vezes um ser mitológico que, em constante conflito entre o bem e o mal que pode fazer, acaba por prejudicá-lo várias vezes. A despeito da opinião do seu companheiro Sam, Frodo volta a confiar na repugnante criatura), a luta contra a ambição e a maneira fácil e mágica de resolver as coisas, ambas a seu alcance (Frodo recusa-se a usar o anel para defender-se, pois sabe que, se utilizá-lo, será dominado pela ambição de poder), além da amizade, da lealdade e da abertura ao diferente. Encontrei, ainda, pessoas que confiam inteiramente nos amigos e que fazem de tudo para cumprir suas promessas.

Em Harry Potter, encontrei novamente a amizade que vence o medo, a lealdade que vence o orgulho e a presunção, a humildade e a pequenez que vencem a maldade e a presunção, a fidelidade que leva a arriscar a vida em favor do outro. A vitória não depende da violência, mas das virtudes vividas pelos protagonistas, sempre menores e indefesos diante de seus opositores.
Estes valores cristãos são exercidos em meio à mitologia, à fantasia, a um mundo que todos – inclusive as crianças – sabem inexistentes. Estes mesmos valores, porém, por mais que sejam garimpados, dificilmente serão encontrados nos enlatados da TV e nos filmes “de ação” ou “policiais” disponíveis nas locadoras. Lá se encontra, certamente, ódio, inimizade, traição, deslealdade, violência, terror. Vence o mais violento, não o que tem melhores sentimentos ou o que vive valores como os citados acima. Vence o mais esperto, o mais ágil, o mais rápido, o mais inteligente, o mais sagaz, o que mata mais e mais rápido, o que tem melhor pontaria, o que conta com conhecidos mais influentes.

Longe da fantasia mitológica dos elfos e unicórnios – e a fantasia, como sabemos, é necessária ao desenvolvimento da criança e pré-adolescente – está a crueza dos seriados de TV, onde se vê uma sociedade de bruxas adolescentes que praticam as mais engenhosas malvadezas para conseguir seu intento. Estas sim, disponíveis uma vez por semana em um dos canais a cabo, usam bruxaria de verdade, sem vassouras ou varinhas de condão, mas com ritos satânicos e pactos seguros com o diabo.
Bem distante da fantasia dos dois filmes em questão, estão os filmes sobre RPGs (*), dentre os quais um que traz a seguinte cena: uma mãe passeia pela sala, com sua filha adolescente, ambas de camisola, à luz da aurora que vem de raiar. A mãe diz à filha, de maneira muito doce, que quer saber se existe eternidade. Durante a conversa, a mãe senta-se em uma poltrona e continua a conversa com a filha sentada a seus pés, com os braços sobre seus joelhos. Com um sorriso, muito feliz, dá um tiro na cabeça, espirrando sangue sobre a filha e sobre a parede atrás de ambas. Aos gritos da filha, ela volta à vida, ainda com um sorriso, mas sem a cicatriz e diz que ela tem razão, que é muito bom lá do outro lado, e que ela, como mãe, quer o melhor para a filha. Com o mesmo revólver, atira na cabeça da filha e ambas morrem. O pior da cena é que acontece durante um jogo de RPG e é vivida na “vida real” dos protagonistas, que convidam o espectador a juntar-se com eles, com expressões de poder e felicidade.

O que seria mais impactante sobre um adolescente: esta cena ou a cena de adolescentes que voam em vassouras durante um jogo e fazem penas e tacapes pairar no ar? O que envolveria mais as emoções – e, conseqüentemente a vontade, que, com as emoções envolvidas fica menos protegida – esta cena ou as guerras de milhares de seres inexistentes clonados pelo senhor do mal? Ao que eu saiba, vassouras voadoras não existem (embora, certamente, exista a bruxaria, cada vez mais divulgada entre os adolescentes). Ao que eu saiba, armas de guerra medievais só se encontram em pouquíssimos museus.
Ao que eu saiba, porém, revólveres, venenos, facões, são fáceis, aterradoramente fáceis de serem encontrados em qualquer loja de qualquer cidade.

Precisamos fazer a distinção entre o que é uma exposição da doutrina cristã (própria das aulas e livros de doutrina e que tornaria um filme ou livro de ficção impossível) e o que é uma proposta de vivência dos valores cristãos (isso, sim, pode ser feito em uma obra de ficção, como tem sido feito nos contos de fada há milênios). Precisamos, ainda, saber o que é, verdadeiramente, bruxaria (é fácil! Está disponível nos filmes dos canais a cabo), o que é mitologia (que, em seus seres imaginários, personifica o bem e o mal, os valores e anti-valores) e o que é obra do Maligno para pôr a perder a nossa infância e juventude. No meu entender, o Maligno consegue muito mais o seu intento insuflando anti-valores em protagonistas de carne e osso do que através de valores positivos vividos por seres míticos e imaginários.
Pelo pouco que consigo enxergar, são muito mais nocivos os filmes “de ação” ou “policiais” estilo Hollywood, absolutamente vazios de enredo e superlotados de violência, do que os dois filmes em questão. É muito mais nociva a divulgação da vingança, do ciúme, do ódio, da inveja, da violência que resolve todos os problemas do que a utilização de um universo imaginário para expressar valores positivos, onde o que resolve os problemas não é a violência, mas a amizade, a inocência, a pequenez, a lealdade, o perdão, a confiança.

Percebo que a maioria das pessoas – inclusive eu mesma – tende a reagir negativamente a filmes como Harry Potter e Senhor dos Anéis devido à presença de bruxos, duentes, elfos, unicórnios, magos e vassouras voadoras. Talvez devêssemos olhar além do cenário e dos personagens e buscar quais os valores que o filme quer passar. Quem sabe, conseguiríamos classificar na categoria dos “renunciáveis” as explosões, os tiros, as granadas, os venenos, os facões, as feiticeiras modernas, as perseguições de carros (infalíveis nesses tolos e vazios filmes de ação). Haveria, certamente, mais cuidado com aquilo que o filme deseja comunicar do que com a maneira que utiliza para fazê-lo. Segundo este critério, um filho adolescente poderia repreender os pais dizendo: “Isso vai acabar fazendo mal a vocês! Esse filme exalta a vingança! Este facão cortando a cabeça da velhinha é horrível! Esta gangue chutando o homem até morrer, gratuitamente, só para curtir! Que horror! Esta menina-bruxa envenenando o pai! Que barbaridade! Essa moça matando a pauladas e ficando com a herança! Que coisa inverossímel! Quanto ódio, quanta violência pela violência! Quanta traição, deslealdade! Quanta frieza! Quanta vitória de quem é mais forte! Isso é do demônio!”

E os pais, esquecidos de que revólveres, facões, pedaços de madeira, venenos e congêneres são reais, provavelmente responderão, aborrecidos: “Vai te criar, menino! Aqui não tem nenhum demônio! A gente já é adulto! Isso é coisa de filme!”, até que um dia, saibam, por telefonemas aterrorizados e pelos jornais, que seus melhores amigos foram assassinados pela filha e que o filho do doutor fulano, amigo de infância, chutou até a morte um garçom, só para curtir. E, mesmo neste dia, deixarão de lado os filmes de violência? Identificarão, em seus anti-valores, o próprio demônio? Entenderão que o que perde as almas é a falta de caridade, de paciência, de bondade, de verdade e que este é o maior intento do Inimigo? Proibirão, finalmente!, seus filhos de se exporem a filmes com tais contra-valores? Ou continuarão reagindo a filmes “que falam dessas coisas do Inimigo” (como se mitologia e fantasia fossem sempre “do Inimigo”) e permitindo que os filhos vejam filmes em que o Inimigo fala através da propaganda dos contra-valores?

Como auxílio à nossa reflexão acerca da adequação de um filme ou livro com base nos valores que expressa e na mensagem que veicula, talvez possamos meditar na frase de Tatiana Bonumá, autora da reportagem Como ela pôde? sobre a violência entre os adolescentes e jovens: O que fez com que esses jovens não pudessem encontrar outra forma de enfrentar (o desafio que viviam) e incluíssem a violência entre o rol de suas soluções possíveis?
Se a sociedade não estivesse doente, se a família ainda fosse um refúgio de amor, se os pais ainda corrigissem e orientassem os filhos, se ainda houvesse autoridade sobre os jovens, se ainda se cultivasse os ideais, se ainda se exaltasse as virtudes e valores, a culpa cairia somente sobre a cultura e, neste campo, sobre os filmes. Neste caso – absolutamente hipotético, pois tudo o que foi nomeado na frase anterior é, infelizmente, mera hipótese – neste caso, qual tipo de filme ofereceria aos jovens a violência como única solução possível: os enlatados da TV e filmes de ação tipo Hollywood ou Harry Potter e Senhor dos Anéis? Em qual dos dois se veria, como herói, um jovem saindo de casa, com a cabeça da avó, gotejante de sangue em uma mão, o facão na outra, enquanto a câmera faz um close sobre o rastro de sangue e, em seguida, um fade out enquanto a banda da moda toca a música tema do filme, best-seller entre os CDs para a juventude?

(*)Role-playing Games: jogos nos quais, guiados por um livro, as pessoas vão assumindo a personalidade e atitudes de monstros, assassinos, magos, etc., durante semanas inteiras, até que todos os participantes do jogo sejam eliminados e excluídos do grupo. Muitos adolescentes têm desenvolvido patologias como neuroses paranóicas e têm, mesmo, entrado em depressão e tentado o suicídio devido a estes jogos.

Maria Emmir Nogueira
Artigo da Shalom Maná

 
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